Pesquisa apoiada pela FAPEMA revela novas espécies de peixes exclusivas dos rios maranhenses que ganharam nomes em homenagem a Mãe Catirina e Dona Teté
As novas espécies de cascudo, nome pelo qual os peixes são conhecidos popularmentem são encontradas Rio Munim, nos Lençóis Maranhenses e no Rio Itapecuru
Enquanto o Maranhão vibra ao som das matracas e pandeirões do bumba meu boi, uma pesquisa apoiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (FAPEMA) ganha destaque por fazer referência à cultura popular do estado. O trabalho de uma doutoranda maranhense revelou novas espécies de peixes exclusivas dos rios do estado que receberam nomes que fazem referência a Mãe Catirina e Dona Teté.
A pesquisa é desenvolvida como a tese de doutorado de Ananda Carolina Serejo Saraiva, bolsista de doutorado da Fundação no Programa de Pós-Graduação em Sistemática e Evolução da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). O trabalho tem título “Taxonomia integrativa dos cascudos da subfamília Loricariinae das drenagens costeiras do Nordeste brasileiro” e é orientado pelo professor doutor Sérgio Maia Queiroz Lima.
Para o presidente da FAPEMA, Nordman Wall, a descoberta demonstra como o investimento contínuo em ciência gera resultados que ampliam o conhecimento sobre o Maranhão e fortalecem a identidade do estado.
“Esta descoberta simboliza exatamente o que buscamos ao apoiar a pesquisa científica: gerar conhecimento novo, formar recursos humanos qualificados e revelar ao mundo as riquezas do Maranhão. É motivo de orgulho ver uma pesquisadora maranhense contribuir para a ciência internacional ao mesmo tempo em que valoriza elementos tão importantes da nossa cultura popular. Quando a ciência dialoga com a nossa identidade, ela se torna ainda mais significativa para a sociedade”, destacou.
Ananda Serejo começou esta pesquisa ainda durante o seu mestrado. Na época, ela estudava a morfologia das espécies do gênero Loricaria que ocorrem no Maranhão. Um aspecto que chamou a atenção da pesquisadora foi que as listas de espécies disponíveis naquele momento indicavam a ocorrência de apenas uma espécie para todo o estado, Loricaria cataphracta, uma espécie originalmente descrita do Suriname e amplamente registrada em diferentes regiões da América do Sul.
“Ao analisar os exemplares coletados no Maranhão, observei que muitos deles apresentavam características que não correspondiam às descrições de L. cataphracta. Isso levantou a hipótese de que a diversidade do gênero no estado estava sendo subestimada e que poderiam existir espécies ainda não reconhecidas pela ciência”, pontua a pesquisadora.
Já no doutorado, os primeiros indícios que chamaram a atenção de Ananda Serejo para a existência de duas outras espécies de cascudo, nome pelo qual são conhecidos popularmente os peixes do gênero Loricaria, vieram das análises morfológicas. Alguns exemplares apresentavam características que não correspondiam às espécies já conhecidas deste gênero. Com a ampliação das amostras e a inclusão de dados genéticos, ficou evidente que aqueles exemplares representavam linhagens evolutivas distintas, confirmando que se tratavam de espécies novas para a ciência.

Duas novas espécies
As duas espécies pertencem ao gênero Loricaria, um grupo de cascudos caracterizado pelo corpo alongado e revestido por placas ósseas. Embora sejam semelhantes à primeira vista, apresentam diferenças marcantes na região ventral do corpo.
Em Loricaria catirina, as placas do abdômen e da região peitoral são maiores e mais espaçadas, deixando pequenas áreas de pele expostas entre elas. Já em Loricaria teteae, essas regiões são completamente cobertas por placas ósseas, formando um revestimento contínuo. Além disso, Loricaria teteae apresenta um padrão de coloração característico, com faixas transversais ao longo do corpo e uma faixa escura na extremidade da nadadeira caudal. Essas características, associadas a diferenças na forma da cabeça e a evidências genéticas, permitiram reconhecer as duas espécies como novas para a ciência.

“A descrição de uma nova espécie exige um processo bastante rigoroso. Os pesquisadores comparam detalhadamente os exemplares estudados com todas as espécies já conhecidas do grupo, analisando características morfológicas, medidas corporais, contagens de estruturas anatômicas e, quando possível, dados moleculares obtidos a partir do DNA”, explica Ananda Serejo.
Ainda segundo a pesquisadora, quando diferentes linhas de evidências demonstram que determinado conjunto de exemplares possui características exclusivas e representa uma linhagem evolutiva independente, é elaborado um estudo formal contendo diagnósticos, descrições detalhadas e comparações com espécies relacionadas. Esse trabalho passa pela avaliação de especialistas por meio da revisão por pares antes de ser publicado em uma revista científica.
Homenagem à cultura popular maranhense
Após sua descoberta, Ananda Serejo resolveu homenagear dois ícones da cultura popular maranhense e muito reverenciados durante os festejos juninos. A Loricaria Catirina é uma homenagem a Mãe Catirina, a figura central feminina na lenda do Bumba Meu Boi do Maranhão; já a Loricaria teteae homenageia Dona Teté, uma das maiores referências do Cacuriá no estado.
“Quando surgiu a oportunidade de nomear essas espécies, apresentei a ideia aos meus coautores, que aprovaram a proposta imediatamente. Foi uma forma de unir a riqueza natural e a riqueza cultural do Maranhão, homenageando símbolos que marcaram minha trajetória e representam a identidade do nosso estado”, conta.
Ananda Serejo conta que Mãe Catirina sempre chamou sua atenção por ser a personagem que dá início à história do Bumba Meu Boi ao desejar a língua do boi, tornando-se um dos símbolos mais marcantes da cultura popular do Maranhão. Já a homenagem à Dona Teté tem um significado mais pessoal, pois ela cresceu assistindo às apresentações do Cacuriá de Dona Teté nos arraiais do bairro em que morava e sempre admirou sua força, seu carisma e sua contribuição para a cultura maranhense.
Primeira descoberta
A Loricaria Catirina e a Loricaria teteae não são as únicas descobertas feitas pela pesquisadora maranhense. Ainda durante o mestrado, Ananda Serejo conseguiu descrever a espécie Loricaria turi. No entanto, as evidências disponíveis não eram suficientes para esclarecer completamente a identidade de outros grupos de exemplares que também apresentavam características distintas. Essas questões acabaram se tornando uma das motivações para o doutorado.
“No doutorado, ampliei significativamente a área de amostragem, incluindo exemplares de diferentes bacias hidrográficas e incorporando dados moleculares às análises. Com esse conjunto mais robusto de informações, foi possível testar as hipóteses levantadas anteriormente e confirmar a existência de duas novas espécies exclusivas do Maranhão”, informa.
Importância ecológica
As duas espécies descobertas por Ananda Serejo são endêmicas do Maranhão, ou seja, só são conhecidas no estado. A Loricaria catirina foi registrada na bacia do Rio Munim e, mais recentemente, também na região do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses. Já Loricaria teteae ocorre na bacia do rio Itapecuru, especialmente nos trechos médio e baixo do rio.
“Essa distribuição restrita reforça a importância dos rios maranhenses para a conservação da biodiversidade de peixes de água doce e mostra como diferentes bacias hidrográficas podem abrigar espécies únicas”, alerta.
Ananda Serejo enfatiza que o fato de as espécies serem encontradas apenas no Maranhão, faz com que sua conservação dependa diretamente da preservação dos ecossistemas aquáticos locais.
“Ainda não dispomos de informações suficientes para avaliar com precisão o tamanho das populações dessas espécies ou seu grau de ameaça. Por essa razão, elas foram classificadas no estudo como Dados Insuficientes (DD), categoria utilizada quando o conhecimento disponível ainda não permite uma avaliação adequada do risco de extinção. Isso não significa que estejam ameaçadas ou seguras, mas sim que são necessários mais estudos sobre sua distribuição, abundância e ecologia”, frisa.
O Maranhão como polo de pesquisa científica
A descoberta de duas espécies exclusivas do Maranhão tem grande importância científica e ambiental. Ela mostra que os rios maranhenses possuem uma história evolutiva própria, capaz de gerar espécies únicas que não existem em nenhuma outra região do planeta.
“O Maranhão ocupa uma posição estratégica entre a Amazônia, o Cerrado e o Nordeste brasileiro, o que contribui para uma biodiversidade singular e faz de seus rios importantes ambientes para o estudo da evolução dos peixes de água doce. Essas descobertas ajudam a compreender melhor como as espécies se diversificaram ao longo do tempo e reforçam a relevância do estado para a biodiversidade neotropical”, informa.
A pesquisadora destaca, ainda, que descobertas como essas demonstram que ainda existe uma parcela significativa da biodiversidade brasileira e maranhense que permanece desconhecida pela ciência, especialmente em ambientes de água doce, reforçando a importância da pesquisa e da conservação ambiental.