Ciência, educação do campo e cooperativismo marcam programação da FAPEMA no segundo dia da 4ª Feira Maranhense da Agricultura Familiar

Por Tatiana Sales 14 de agosto de 2026

Pesquisas, publicações científicas e experiências desenvolvidas com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (FAPEMA) mostraram, durante a 4ª Feira Maranhense da Agricultura Familiar (FEMAF), diferentes caminhos pelos quais a ciência pode contribuir para transformar a realidade no campo. A programação desta sexta-feira (14) no estande da Fundação reuniu conhecimentos sobre educação do campo, organização e cooperativismo, produção sustentável, conservação ambiental e biodiversidade.

Um dos destaques da programação foi o lançamento do livro Educação e Disputa por Hegemonia – As Raízes do Pronera no Maranhão, da professora Michelle Freitas Teixeira. A obra reúne os resultados de uma pesquisa financiada integralmente pela FAPEMA desde o doutorado e que investigou as contribuições dos primeiros projetos do Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera), entre 2000 e 2005, para a educação do campo no Maranhão.

Mais do que registrar a trajetória institucional do Pronera, a pesquisa evidencia que a construção da educação do campo no estado está profundamente relacionada à organização e à luta dos próprios trabalhadores rurais. Nesse sentido, os movimentos sociais aparecem como principais sujeitos dessa história, responsáveis por reivindicar políticas públicas, construir experiências educativas e disputar projetos da sociedade e de educação para os territórios camponeses.

Entre essas organizações, destacam-se o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), a Associação em Áreas de Assentamento no Estado do Maranhão (ASSEMA) e o Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB).
“Essa é a finalidade da FAPEMA: executar políticas públicas de publicação de livros por meio de editais. Isso contribui muito para a popularização da ciência e para ampliar o conhecimento sobre os trabalhos que são desenvolvidos nas universidades”, afirmou o diretor científico da Fundação, Cristiano Capovilla, que compareceu ao lançamento do livro.

A pesquisa identificou impactos positivos e duradouros das primeiras experiências do Pronera, evidenciando a formação de “raízes fortes” nas comunidades rurais. Os resultados mostram que essas experiências não podem ser compreendidas apenas como ações de escolarização, mas como parte de um processo mais amplo de organização social e de construção de alternativas educacionais vinculadas às necessidades e aos projetos dos sujeitos do campo.

Entre os resultados estão a experiência do assentamento Balaiada, que avançou na construção de um território livre do analfabetismo, e a atuação das escolas Roseli Nunes e Casa Rural Familiar Padre Josino Tavares na formação da juventude do campo. Essas experiências foram impulsionadas por processos coletivos nos quais os movimentos sociais tiveram papel fundamental na formulação, implementação e defesa de propostas de educação vinculadas à realidade dos territórios rurais.
Professora do Instituto Federal do Maranhão (IFMA) e doutora em Educação pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Michelle destacou a importância de transformar os resultados da pesquisa em conhecimento acessível às comunidades que ajudaram a construir essa história.

“É uma grande alegria celebrar a publicação deste livro, que reúne memórias, experiências e vozes de quem viveu e construiu a educação do campo. O apoio da FAPEMA foi fundamental, desde o financiamento da pesquisa até a possibilidade de difundir esse conhecimento. Nosso principal compromisso agora é fazer com que os exemplares cheguem fisicamente às comunidades rurais, especialmente aos sujeitos que protagonizaram essa história”, ressaltou.

Cooperativismo no campo

A programação da tarde no stand da FAPEMA na FEMAF contou ainda com a apresentação do trabalho Cooperativismo e reprodução social camponesa: a experiência da Coopervag no Maranhão, da mestranda em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA), Maressa Nascimento Salvino.

Também financiada pela FAPEMA, a pesquisa nasceu ainda na graduação da autora e acompanhou a trajetória da produção de mandioca no Maranhão até chegar à experiência da cooperativa em Vargem Grande. O estudo mostra como a organização coletiva contribuiu para transformar uma produção inicialmente artesanal em uma agroindústria estruturada, além de estimular práticas mais sustentáveis, como a redução do uso do fogo e a ampliação da mecanização.

Com cerca de 90 sócios e suas famílias, a cooperativa também se consolidou na produção sustentável de frutas regionais, como cupuaçu, cajá, acerola e goiaba, ampliando seus mercados e atendendo programas como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). A experiência apresentada por Maressa evidencia, assim, como o cooperativismo pode fortalecer a agricultura familiar, ampliar oportunidades de comercialização e contribuir para a organização e a reprodução social das comunidades camponesas.

Conservação ambiental e biodiversidade

Durante a programação da manhã, pesquisas voltadas à conservação ambiental e ao conhecimento da biodiversidade ganharam destaque ao mostrar como o equilíbrio dos ecossistemas está diretamente ligado à sustentabilidade no campo. Na lista de trabalhos apresentados esteve o levantamento de besouros edáficos realizado pelo pesquisador Felipe França dos Santos e equipe, na Trilha Ecológica do IFMA Campus São Luís Maracanã, localizada na Área de Proteção Ambiental (APA) do Maracanã.

A pesquisa mapeou a biodiversidade do território e identificou espécies que desempenham funções importantes na qualidade do solo e na manutenção dos ecossistemas, evidenciando como a ciência e a inovação podem caminhar lado a lado com a preservação ambiental, a transição agroecológica e a valorização dos territórios tradicionais. “Nosso objetivo com essa pesquisa na APA do Maracanã é entender a diversidade de insetos do solo e como eles funcionam como bioindicadores da qualidade ambiental”, explica o pesquisador.