Leitura: um importante instrumento de formação cidadã

Leitura: um importante instrumento de formação cidadã
abril 23 07:50 2018

 

Texto: Silen Ribeiro

Foto: Leandro Alves

 “Quem não lê, não quer saber; quem não quer saber, quer errar.” (Padre Antônio Vieira)

Em 1995, a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) instituiu o 23 de abril como Dia Mundial do Livro. A data, que foi escolhida por marcar o aniversário de morte de dois grandes nomes da literatura universal, William Shakespeare e Miguel de Cervantes, tem o objetivo, sobretudo, de fazer com que as pessoas reflitam sobre a relevância do livro e o direito à leitura como bem cultural.

Com o surgimento da leitura, mudanças substanciais ocorreram na história da humanidade. Para o doutor em Linguística e Língua Portuguesa, pós-doutor em Comunicação e professor dos cursos de Jornalismo e Pedagogia da Universidade Federal do Maranhão  (UFMA), Marcos Fábio Belo Matos, se tomarmos o sentido de leitura como compreensão de mundo e não apenas restrita ao universo da língua escrita ou da língua falada, percebe-se que, quando o homem começa a usar o seu intelecto, permitindo a ele uma leitura, como por exemplo, da natureza, das nuvens da temperas, etc., realmente começa um processo de racionalização, de humanização. “Quando o homem começa a ler com mais sistematização, ele passa a elaborar uma cultura muito mais racional. E quando descobre a escrita e passa a estruturar esse código escrito e a ler isso, dá um grande salto para construir uma civilização porque já possui uma coisa que antes não tinha: a capacidade de registrar a sua vida e a sua cultura em seus alfarrábios, em suas tábuas, passando, então, a fazer disso um repositório de coisas que ele já fez ou pretende fazer. Então ele começa a virar uma civilização que vai dar no que somos”, enfatiza.

Os benefícios proporcionados pela leitura, portanto, são comprovados, já que, por meio dela, criam-se infinitas possibilidades. Para a bibliotecária, especialista em Leitura e Formação de Leitores e diretora da Biblioteca Pública Benedito Leite, Aline Carvalho de Nascimento, a leitura liberta, nos faz crescer, entender o mundo, ser formador da nossa própria opinião, possibilita vários caminhos a escolher, nos faz críticos e criativos.  “Por meio dela, conseguimos entender todas as outras coisas, como a Matemática, a Geografia, a História, o Português e a Política. Ela nos fundamenta, nos faz ter solidez nos atos e atitudes. Enfim, a leitura nos permite exercer a nossa cidadania”, fala.

E mais: alguns estudos apontam que não importa a ferramenta utilizada – se livro, jornal, revista, gibi, livro digital, etc. O simples ato da leitura já é de suma importância para contribuir com desenvolvimento de qualquer ser humano.

Leitura e internet

Surgida na década de 60 como objetivo de auxiliar a Guerra Fria, a internet só chegou ao Brasil nos anos 90, disponibilizada, inicialmente, apenas para pesquisas e somente em algumas universidades. A partir de 1995, foi permitido a usuários fora das instituições que também tivessem acesso a ela e que a iniciativa privada fornecesse esse serviço.

Desde então, no Brasil, a internet passou a ser foco de discussões de diversas correntes que se formaram a favor e contra ela, no que se refere à sua influência quanto ao hábito da leitura.

O professor Marcos Fábio é enfático ao afirmar que não considera a internet uma inimiga da leitura.  Segundo ele, depois dela os jovens até leem mais. “O problema é que a leitura feita por meio da internet é dispersa, por conta da própria característica do dispositivo. Ela permite que o leitor comece uma leitura, vá divagando por uma série de links, que é a hipertextualidade, abrindo uma série de canais e ele acaba se perdendo nisso. Aquela leitura funcional que havia antes, que se começava a ler um livro e ia-se até o final, em uma leitura culturalmente tradicional, acabou. Se você entrar em um ambiente da internet, você vai ver uma notícia, você abre a notícia, a notícia tem um vídeo, você clica no vídeo e então você já perde o caminho que estava fazendo e, às vezes, nem retorna para a notícia”, completa.

E o que dizer sobre a leitura em papel?

Muitos afirmam que, apesar da concorrência com outras mídias, o hábito de leitura em papel continua fundamental. Mas há uma preocupação por parte de alguns: a de que, em breve, isso irá acabar. Quanto a esse aspecto, o professor Marcos Fábio pondera que não acredita nesse final, mas sim em sua redução. “Vai ficar um hábito de uma natureza muito própria, que as pessoas vão fazer cada vez menos. No entanto, quando fizerem, o farão com qualidade. É mais ou menos como o costume de ir ao cinema. Atualmente, com o serviço de streaming – nexflix, Amazon, etc., as pessoas frequentam cada vez menos o cinema. Mas as que vão é porque gostam, do contrário ficariam em casa assistindo a filmes naquelas TVs imensas. Virou, assim, uma ação muito comprometida com o meio. Então, acredito que a leitura em papel vai continuar   sim,  embora num futuro entre 20 e 30 anos deverá ficar reservada a pessoas  que realmente gostam de livros como produto cultural. Importante frisar que o livro não é apenas um mecanismo de leitura. Então, quem gosta dele como produto cultural vai continuar preservando o formato em papel porque ele é muito mais contemplativo, mais natural, e a leitura muito menos apressada e muito menos dispersa do que a dos dispositivos de mídias virtuais”, completa.

Brasileiros ainda não têm o hábito da leitura

Encomendada pelo Instituto Pró-Livro e realizada pelo Ibope em 2015, com divulgação em 2016, a quarta edição da “Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil” aponta que 44% da população brasileira não lê, que 30% nunca comprou um livro sequer e que é de apenas 4,96 a média de livros lidos por ano pelo brasileiro.

Isso coloca o Brasil atrás de países vizinhos como Venezuela e Argentina, de acordo com o Índice de Cultura Mundial, publicado pela Market Research World em 2016 e que se refere a diferentes hábitos culturais, entre eles a leitura. Frisa-se que a Índia é a primeira do ranking, lugar ocupado desde 2005, com 10 horas e 42 minutos dedicados à leitura. A média do Brasil é menos da metade disso.

Essa deficiência de leitura causa ao brasileiro inúmeros danos, tais como a falta de criticidade, a alienação política e social, conforme alerta Aline Carvalho. “Acredito que a falta de desenvolvimento social de uma comunidade é o maior prejuízo. Uma sociedade desenvolvida é bem informada e a informação passa necessariamente pela leitura”, frisa.

Na contramão dos costumes

O auxiliar administrativo e estudante de Direito, Raimundo Nonato Cruz Soares, faz parte de um seleto grupo: o de que faz da leitura uma fiel companheira. Costuma ler entre 25 e 45 livros por mês. O seu interesse pela leitura começou aos 10 anos, quando aprendeu a ler. No entanto, não tinha efetivamente acesso a livros nessa época. “Quando eu tinha uns 12 anos, um vizinho deixou na casa dos meus avós dois livros ‘Esaú e Jacó’ e ‘Quincas Borba’, de Machado de Assis. Esses foram os primeiros romances que li. Lembro que passei uns dois meses lendo a obra “Esaú e Jacó” e o entendi graças a um dicionário básico de Língua Portuguesa que ganhei de um amigo do meu avô”, conta.

 Raimundo Soares considera a leitura a melhor conquista de sua vida. “Ela é a base de tudo o que sou e do que consegui. Eu era apenas um garoto tímido que nasceu e morava numa fazenda agrícola, pais analfabetos, uma vida cheia de limites. Mas, graças à leitura, pude conhecer países novos e antigos, civilizações extintas, povos mágicos, oceanos, deuses e heróis, artes, ciências, tudo. A leitura me salvou de influências negativas, me salvou das ruas e do contato com drogas que outros amigos de infância não puderam evitar”, assegura.

Admite, no entanto, que já foi um leitor mais rápido, chegando a ler até quatro livros por semana. Hoje já não faz mais isso. “Devido ao tempo, ao trabalho, à faculdade e a distrações da tecnologia, a atenção que posso disponibilizar para a leitura é bem menor. Mesmo assim, sempre tento me organizar para a leitura: ando com um livro na mochila, ou na mão, no celular ou um e-reader (uso o kindle); todo mês compro um ou dois livros novos; visito, mensalmente, bibliotecas, livrarias ou sebos; acordo cedo, geralmente entre 5h e 5h30 da manhã, e aproveito essas primeiras horas para avançar na leitura; leio na hora do almoço, em filas, em viagens, nos fins de semana”, declara Raimundo Soares.

Mas como desenvolver o hábito da leitura?

Diante de índices tão baixos apontados pelas pesquisas, fica claro que algo deve ser feito para que esse quadro seja mudado. Afinal, pela sua relevância, a leitura deveria estar presente na vida de todos. Mesmo não havendo fórmulas mágicas para que isso ocorra, existem algumas medidas que podem e devem ser tomadas.

Para Aline Carvalho, é necessário a oferta de livros, principalmente os literários. “A leitura é um direito humano e isso não pode ser negado. Tornar a leitura uma prática diária, fazendo com que todos, principalmente as crianças, tenham sempre em mãos um livro, uma revista, enfim, algo que lhe seja prazeroso, é fundamental para a construção de uma sociedade desenvolvida e leitora. E para termos uma sociedade desenvolvida, precisamos de mais bibliotecas, principalmente públicas e escolares e que estas sejam espaços acolhedores, que possuam acervos atualizados e atrativos, bibliotecários e um importante trabalho de mediação de leitura”, afirma.

Segundo ela não há uma faixa etária específica para melhor incentivar a leitura, mas quanto mais cedo pudermos oferecer o livro, melhor. “A criança que é estimulada a ler, tem uma chance muito maior de se tornar um leitor na fase adulta. Como já falei, é necessário tornar a leitura uma prática diária. O gosto pela leitura é um hábito que se consolida a partir da prática cotidiana, devendo, portanto ser estimulada desde a infância, até tornar-se uma necessidade”, explica Aline Carvalho.

Também é importante que se tenha em vista que muitas correntes defendem que pais que leem influenciam seus filhos para serem bons leitores. Aline Carvalho compactua com essa ideia.  Segundo ela, a criança que convive com pais e famílias leitoras, que está sempre em contato com os livros, muito provavelmente vai desenvolver o gosto pela leitura. Ressalta que em um País com tantas desigualdades sociais e que sabemos que muitas não têm acesso ao livro, principalmente ao literário, cabe às bibliotecas, que são os espaços mais democráticos de acesso ao livro, à leitura e à informação, fomentarem essa prática fazendo a mediação entre a criança e o livro. “O trabalho com formação de leitores nos faz ter a certeza de que, quando oferecemos um livro à criança e também ao jovem, eles gostam e se sentem atraídos pela leitura. Isso nos faz ter a certeza que uma das principais causas do afastamento da criança e do jovem da leitura é a falta de acesso e a forma como muitas vezes o texto, principalmente o literário, está sendo apresentado a elas”, finaliza.

Bibliotecas

Há em nosso País 7.166 bibliotecas cadastradas no Sistema Nacional de Bibliotecas do Ministério da Cultura.

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil possui, em média, uma biblioteca para cada 30 mil habitantes. Para se ter uma noção melhor de como isso é preocupante, onde se tem o melhor índice do mundo, que  é  na República Tcheca, a proporção é de 1 para cada 1.970 habitantes.

E engana-se quem pensa que a biblioteca é apenas repositório de livros. É muito mais que isso. Na verdade, ela tem uma função primordial de orientar o leitor. É um ambiente que agrega valores positivos no processo de obtenção de conhecimentos, sendo, portanto, uma ferramenta de apoio didático pedagógico.

As pessoas que tiveram boas experiências em bibliotecas podem afirmar isso. Que o diga o jornalista Samartony Martins. “Meus pais sempre incentivaram a mim e meus irmãos o hábito da leitura. E como nós não tínhamos muitas condições de comprar livros, uma das saídas foi frequentar as bibliotecas do Sesc e a Benedito Leite que ficam próximas de nossa casa. A minha frequência na Biblioteca Benedito Leite aumentou quando comecei a descobrir os clássicos da literatura maranhense e do Brasil para a realização de trabalhos escolares e de lá para cá não parei mais de ler. Mesmo com toda tecnologia, continuo frequentando bibliotecas, sebos e livrarias. Gosto de pegar o livro, senti-lo, paginá-lo. Amo ler. Na época do primário, uma professora minha sempre dizia que quem não sabia ler, não sabia escrever. Acho que isso também me incentivou a frequentar bibliotecas”.

E o jornalista vai mais além. De acordo com ele, bibliotecas, por natureza, são templos de saberes desde os tempos bíblicos, a exemplo da Biblioteca de Alexandria que foi uma das mais importantes da humanidade. São nestes locais que o homem ao longo de sua existência foi repassando seus conhecimentos para as futuras gerações e chegamos aonde chegamos com as bibliotecas virtuais que estão na palma de nossa mão. “Fico feliz em ter frequentado estas bibliotecas físicas e virtuais que foram fundamentais para a minha formação como ser humano e profissional da área de Comunicação. Foi por meio das bibliotecas que eu consegui viajar por países, conhecer personalidades, ter contato com histórias inimagináveis sem sair da minha casa. Elas são fundamentais para o conhecimento e desenvolvimento do homem, por isso é indispensável o incentivo para que sejam frequentadas”, finaliza.

Fapema e a leitura

Também como forma de incentivar a leitura a partir da publicação de livros, visando à divulgação técnico-científica, a Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (Fapema), no âmbito do programa Dê Ciência, oferece o edital “Livros”. Fiquem sempre ligados em nosso site https://www.fapema.br  e em nossas redes sociais para mais informações sobre o assunto.

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