Dos portadores do HIV, 65% avaliam estar bem de saúde

Dos portadores do HIV, 65% avaliam estar bem de saúde
dezembro 03 14:35 2009

Um estudo feito com pessoas em tratamento de Aids no Brasil mostra que elas sofrem mais com problemas relacionados à interação social do que com a ação do HIV no organismo. Sessenta e cinco por cento dos entrevistados avaliam seu estado de saúde como bom ou ótimo. O índice é cerca de dez pontos percentuais maior que o da população geral – a diferença persiste mesmo após padronização por sexo e faixa etária. A comparação com portadores de outra doença crônica ou de longa duração surpreende ainda mais. Apenas 27% (um percentual duas vezes menor) desses outros pacientes classificam sua própria saúde como boa ou ótima. Os números fazem parte da pesquisa Percepção da qualidade de vida e do desempenho do sistema de saúde entre pacientes em terapia antirretroviral no Brasil. Na fase de análise, os dados também foram comparados aos da Pesquisa Mundial de Saúde, feita pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2003. A pesquisa é fruto da tese de doutorado de Paulo Roberto Borges de Souza Júnior na Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz) e foi realizada com 1.260 pessoas. Contou com financiamento da Usaid e o apoio do Ministério da Saúde (MS). Seus resultados são representativos de toda a população em tratamento antirretroviral, atualmente cerca de 200 mil pessoas.

A boa percepção do estado de saúde entre as pessoas com Aids contrasta com problemas sociais e psicológicos enfrentados por elas. Nesse ponto, a situação de quem está em tratamento com o coquetel antiaids é pior do que a população geral. Entre as soropositivas, 33% afirmaram ter grau intenso ou muito intenso de tristeza ou depressão e 47% grau intenso ou muito intenso de preocupação e/ou ansiedade. Entre os homens, o índice é um pouco menor – 23% e 34%, respectivamente.

A Pesquisa Mundial de Saúde fez a mesma pergunta para a população geral e constatou que apenas 15% declararam sentir um grau intenso ou muito intenso de tristesa ou depressão. Preocupação e ansiedade na população geral também foi menor – 23% para o total (28% entre as mulheres e 17% entre os homens).dia_aids2009

Esses resultados indicam que, apesar de mais da metade das pessoas autoavaliarem bem sua saúde, uma boa parte ainda não superou os traumas psicológicos causados pelo diagnóstico de HIV/Aids. “O sentimento de tristeza e depressão pode ser explicado pela falta de apoio social, pelo sentimento de discriminação, pelo sentimento de solidão, entre outros, que diferenciam as pessoas com aids da população geral”, afirma a coordenadora da pesquisa, Célia Landmann.

Em relação ao estado de saúde, o que se percebe é que o impacto do diagnóstico é tão forte, que após o início do tratamento e a melhora das condições imunológicas, as pessoas se sentem saudáveis novamente. “Quando fazemos a pergunta, eles acabam por comparar a situação atual ao momento do diagnóstico, o que faz com que boa parte dos pacientes respondam que atualmente sua saúde é excelente ou boa”, explica o pesquisador Paulo Borges.

Estigma e preconceito

A pesquisa também identificou os impactos positivos e negativos do diagnóstico da Aids entre os participantes do estudo: 38% deles afirmaram não ter tido nenhum ganho; e 43,5% disseram ter, depois do diagnóstico, melhor assistência à saúde. Outros 18,6% afirmaram ter maior suporte social. Entre as perdas, a mencionada pelo maior número de pessoas foi a piora das condições financeiras (36,5%), seguida da aparência física (33,7%). Entre todos esses aspectos, o único que está diretamente relacionado diretamente ao HIV é a piora na aparência física. Todas as outras dependem também de questões sociais.

O sentimento de depressão referido pelos pacientes é bastante associado a boa parte dos problemas citados acima, bem como ao sentimento de solidão. Na avaliação de Célia Landmann, a preocupação e ansiedade relatadas podem estar associadas ao medo da morte.

Aspectos socioeconômicos

No que se refere às condições socioeconômicas, os resultados do estudo indicam um nível melhor de educação entre os pacientes de aids quando comparados à população brasileira. Porém, apesar de o nível educacional dos pacientes ser mais alto do que o da população brasileira, a distribuição de renda é semelhante. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD-2006), divulgada na época do estudo com soropositivos, 67% da população brasileira, com 18 anos ou mais, têm rendimento mensal menor que dois salários-mínimos (incluindo todas as fontes de renda), proporção semelhante à encontrada entre os pacientes de aids (69%). Os resultados mostram também que a proporção de pacientes homens que não trabalham (55%) é bem maior do que a da população geral masculina (21%, conforme a PNAD-2006).

Na avaliação de Borges, isso é um reflexo da dificuldade que essas pessoas têm de conseguir e manter-se no emprego. Elas – observa o pesquisador – costumam ir ao serviço de saúde uma vez por mês, para pegar os medicamentos e serem consultados e, na maioria das vezes, perdem muito tempo com isso. “É difícil explicar no trabalho, sem revelar seu estado sorológico, que será necessário faltar uma vez por mês. Até mesmo os pacientes que estão no mercado de trabalho relatam essa dificuldade”, diz. Além disso, ainda existe muito preconceito e discriminação em relação ao HIV, pois mais de 20% dos entrevistados perderam o emprego após o diagnóstico.

Em relação à situação de trabalho, no total, 58% não trabalham atualmente (55% entre os homens e 62% entre as mulheres). Entre os pacientes homens, aposentadoria por doença (31,3%), incapacidade (14,7%), e recebimento de auxílio-doença (24,6%) foram os principais motivos alegados para não estarem trabalhando. Entre as mulheres, 28% são donas de casa, 15,4% são aposentadas pela doença, 11% relataram incapacidade para o trabalho, e 15,4% recebem auxílio-doença.

Fatores que impactam a boa avaliação do estado de saúde

Os pesquisadores que conduziram o estudo desenvolveram um modelo estatístico para verificar os principais fatores associados à autoavaliação do estado de saúde como excelente ou boa. De acordo com a análise, fatores sociais como escolaridade e renda impactam positivamente. Quem tem ensino fundamental completo ou mais tem 70% mais chance de ter boa avaliação do que quem tem ensino fundamental incompleto. Quem pertence às classes sociais A e B tem duas vezes mais chance de ter boa avaliação os das classes D ou E. Por outro lado, estar aposentado por motivo de doença, incapacitado para o trabalho ou recebendo auxílio doença diminui em 55% a chance de ter boa autoavaliação do estado de saúde.

No que diz respeito à resposta ao tratamento, efeito colateral ou reações adversas e presença de sintomas impactam negativamente a boa autoavaliação. Quem relata ter tido sintomas da Aids tem 40% menos chance de ter boa autoavaliação.

Ter iniciado o tratamento a partir de 2007 também é um fator negativo para a boa autoavaliação. Provavelmente, esses pacientes ainda não recuperaram seu sistema imunológico devido ao pouco tempo de tratamento e ainda estejam sofrendo com os efeitos colaterais do início do tratamento e do diagnóstico recente. Essa última constatação reforça a necessidade da ampliação da testagem anti-HIV. Quanto mais cedo é o diagnóstico, maiores são as chances de os soropositivos terem sobrevida mais longa e de maior qualidade.

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