Estudo aponta que é preciso melhorar treinamento em urgência psiquiátrica

Estudo aponta que é preciso melhorar treinamento em urgência psiquiátrica
novembro 19 13:51 2009

Pesquisadores do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz) ganharam o prêmio Jovem Psiquiatra durante o 27º Congresso Brasileiro de Psiquiatria, em São Paulo, que contou com 6 mil participantes. Intitulado Manejo do suicídio na emergência: dificuldades na formação do residente e na estruturação dos serviços no Brasil, o artigo, assinado por pesquisadores do Laboratório de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde (Labcities), é fruto de uma pesquisa, ainda em curso, sobre vigilância epidemiológico-sanitária e prevenção ao suicídio. O objetivo do trabalho é identificar as dificuldades na formação do residente de psiquiatria na condução do atendimento emergencial, especialmente quando há risco de suicídio.

O estudo foi coordenado pelo pesquisador do Icict Carlos Estellita-Lins e contou com o apoio de pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e de outras unidades da Fiocruz. Também participaram da pesquisa bolsistas, mestrandos e doutorandos do Programa de Pós-Graduação em Informação e Comunicação em Saúde do Icict.suicidio_prevencao

Após entrevistas e discussões com os residentes, os resultados apontaram para a necessidade de melhorias na  rede assistencial em psiquiatria e, sobretudo, um investimento na formação de médicos emergencistas durante a graduação e a residência. Para o coordenador da pesquisa, o mais importante no estudo foi levantar alguns aspectos sobre a falta de conhecimento dos residentes, a qualidade precária do treinamento em urgência psiquiátrica e a formação incipiente dos profissionais de saúde no que diz respeito ao risco de suicídio. “Quando falamos da emergência em psiquiatria, percebemos algumas falhas no sistema. Primeiro porque as universidades não têm um ‘bloco’ especializado nesta área. Segundo porque as emergências não têm uma qualidade adequada de assistência e tampouco um fluxograma claro de encaminhamento ou protocolos de conduta. Por último, os profissionais que trabalham na ‘linha de frente’ nas emergências não têm o treinamento adequado”, explica Carlos Estellita-Lins.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), em todo o mundo, cerca de 450 milhões de pessoas sofrem de transtornos mentais e comportamentais. No que diz respeito ao Brasil, estudos apontam que cerca de 23% da população sofrem com transtornos mentais comuns, incluindo ansiedade e depressão. Segundo o coordenador, isso significa que quase um quarto da população seria passível de diagnóstico e necessitaria de algum tipo de ajuda, e mais da metade deste grupo, provavelmente, desenvolveria uma forma mais grave de transtorno depressivo, que poderia levar, inclusive, ao suicídio.

Nesse sentido, Carlos Estellita-Lins defende que, para reduzir o número de indivíduos com esses transtornos, além das campanhas de reflexão e conscientização de todos os setores da sociedade, é preciso uma maior resolutividade no primeiro contato do paciente com o hospital.  “Se as pessoas pararem de ver o suicídio como uma questão moral e admitirem que mais de 90% dos casos de suicídio estão relacionados a transtornos mentais, teremos uma melhor compreensão sobre o assunto, uma maior possibilidade de intervenção e, consequentemente, uma redução nas taxas de suicídio. No caso do primeiro atendimento, a maior preocupação da emergência deve ser atender com rapidez e eficácia, na tentativa de prevenir para que, no futuro, as pessoas não desenvolvam quadros graves de transtornos mentais”, opina.

Para Carlos Estellita-Lins, só o fato de refletir e discutir sobre o suicídio já é um avanço muito grande. O coordenador pondera que o mais complicado nessa questão é saber como deve ser a informação e a comunicação para os trabalhadores de saúde, os médicos-residentes, os pacientes e a população em geral. “Temos que ter cuidado com o processo de comunicação e mediação, pois, para qualquer pessoa que está deprimida, só o fato de divulgar que, em determinado local o chumbinho é vendido livremente, pode aumentar as chances de uma tentativa de suicídio”, exemplifica. O pesquisador acredita que, além da inclusão da comunicação na agenda da saúde, folderes, cartazes, manuais e vídeos educativos podem ajudar o paciente e a população a lidar com essas situações e preveni-las.

A pesquisa integra um conjunto de investigações com o objetivo de prevenir o suicídio, que teve início no ano passado e contou com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro (Faperj) e apoio da Fiocruz.

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