Terezinha Rêgo conta a sua trajetória de 55 anos na pesquisa fitoterápica

No Dia Internacional de Mulheres e Meninas na Ciência, instituído pela ONU, a FAPEMA homenageia todas as pesquisadoras maranhenses, destacando a entrevista concedida à Revista Inovação, em dezembro do ano passado, pela farmacêutica com maior tempo de atividade profissional no estado

Terezinha Rêgo conta a sua trajetória de 55 anos na pesquisa fitoterápica
fevereiro 11 10:07 2020

ENTREVISTA

Terezinha de Jesus Almeida Silva Rêgo

JARDINS DE CURA

Texto: Elizete Silva e Cláudio Moraes

Fotos: Odinei de Jesus e arquivo da família

Em setembro, a professora e fitoterapeuta Terezinha Rêgo recebeu uma homenagem em sessão especial do Senado, em Brasília, pelos 55 anos de dedicação à flora medicinal maranhense. Foi destacado seu trabalho em prol da saúde da população e formação de estudantes de farmácia. Isso só confirma que toda a vida dela foi dedicada ao estudo das plantas. A medicina popular, as espécies e hortas medicinais e a fitoterapia fazem parte do seu cotidiano desde tenra idade. Seu discurso, lido pela filha, Tânia, lembrou o contexto histórico de sua formação, quando não havia suporte da tecnologia e a pressão sofrida por mulheres que exerciam profissões para que ocupassem postos “limitados e invisíveis”. Sua contribuição na formação de novos profissionais deu-se com um olhar voltado para o desenvolvimento da cidadania e da justiça social. “Sempre busquei valorizar a flora do meu estado e divulgar a sua potencialidade para o Brasil e para o mundo”, escreveu Terezinha.

Ela é doutora em Botânica; membro fundadora da Academia Maranhense de Ciências; Livre Docente em Botânica Geral, permaneceu três anos na Universidade de São Paulo (USP), como bolsista da Capes, onde concluiu sua tese defendida em 1977 na Universidade Federal do Maranhão; foi eleita, em Cuba, representante de Etnobotânica junto à América Latina, de 1990 a 1994; representa no Maranhão a Sociedade Botânica do Brasil; fundou o herbário Ático Seabra; coordenou o Polo de Biotecnologia do Maranhão (MAR-BIO); foi professora titular do Departamento de Farmácia da UFMA e coordena projetos de fitoterapia em comunidades carentes do Maranhão por meio do programa estadual Farmácia Viva.

Hoje, aos 86 anos, ela se orgulha em dizer que nunca deixou de trabalhar. Mesmo aposentada, prossegue em sua trajetória acadêmica na Universidade Federal do Maranhão, onde dá palestras e cursos. Também atua no projeto de extensão em Fitoterapia no Herbário Ático Seabra, onde estão catalogadas quase 11 mil espécies que caracterizam a flora do estado do Maranhão. No local são comercializados medicamentos fitoterápicos elaborados a partir de estudos coordenados pela professora, que também orienta pacientes que buscam uma alternativa ao tratamento com medicamentos industrializados. O interesse pelas plantas surgiu quando ela ainda era criança, aos oito anos, e foi herdado do avô José Moreira de Almeida. Hoje, o seu trabalho é reconhecido mundialmente e já lhe rendeu vários prêmios. Neste ano, a professora é a grande homenageada do Prêmio FAPEMA. Casada há 56 anos com o piauiense Artur Nunes do Rêgo, 88 anos, cirurgião dentista com quem tem duas filhas, Tânia Maria Silva Rêgo, professora e doutoranda em música, e Telma Maria Silva Rêgo, professora de filosofia. Ela concedeu entrevista à Revista Inovação para falar sobre sua trajetória e seu legado.

Conte sobre a sua descoberta e o seu interesse pelas plantas.

O meu interesse pelas plantas começou muito cedo.  Nós tínhamos fazenda no interior do Maranhão, no município de Cajapió, e meu avô era muito invocado com o tratamento através das plantas e eu era muito ligada com meu avô. Eu tinha oito anos e ele saía perguntando para aquelas senhoras “o que você tomou pra isso? O chá tal pra isso …!” E ele me passou isso. Lembro que a primeira balançazinha, em que comecei a pesar os materiais coletados nas pesquisas para preparar os medicamentos, foi ele quem me deu. Uma das minhas primeiras experiências me custou três meses de castigo. Minha mãe plantava dálias selecionadas no nosso casarão, na rua da Paz, e eu entendi de botar amendoim entre elas para ver como acontecia o desenvolvimento. Com isso, esqueci que essas casas antigas têm ratos. Os ratos vieram e comeram não só os meus amendoins todos, mas também a batata das dálias da minha mãe. Aí eu fiquei três meses de castigo. Essa foi a minha primeira experiência, que foi desastrosa.

Mesmo depois dessa experiência que considera “desastrosa”, a senhora continuou com o interesse por experiências com plantas?

Sim. Eu sentia uma revolta muito grande ao ver que ninguém se interessava em mostrar essa riqueza que nós temos. Sempre eram informações vindas do Ceará ou do Pará. Eu disse “vou me dedicar a isso” e comecei a pesquisar, a fazer o trabalho. Comecei instalando hortas medicinais nas periferias. Primeiro, no Apeadouro, eu implantei a primeira horta. Eu fazia um trabalho de pesquisa junto com as comunidades, perguntando quais as doenças mais comuns naquela área, interessada em determinar quais as plantas que já tinham uma resposta na melhoria da qualidade de saúde e de tratamento das enfermidades. E assim começou a minha luta!

Em que ano esse trabalho começou?

Eu me formei em 1957 e já era invocada, desde o terceiro período. Comecei em 55, 56, com essa ideia das hortas.  Então eu ia para a periferia fazer um levantamento das doenças mais comuns e trazia as plantas que a gente já tinha um estudo e que sabia que elas eram determinadas para aquele tipo de tratamento. E a dificuldade que as pessoas têm, ainda até hoje, de acesso à farmácia, medicamentos muito caros. Daí veio a ideia de começar a fazer os medicamentos naturais, partindo do mel. Eu tenho um número de xaropes que já estão consagrados, muito utilizados. Também comecei selecionando essas plantas e extraindo o princípio ativo. Hoje, eu tenho 48 produtos já lançados, tinturas, pomadas e xaropes. Essa é minha luta pela fitoterapia, com o apoio muito, muito grande da minha universidade, dentro das possibilidades, criei o herbário, onde já temos catalogadas 10.800 espécies que caracterizam a flora do estado do Maranhão. Eu também queria que o Maranhão já tivesse um diagnóstico da sua riqueza da flora. Consegui fazer esse trabalho selecionando as nossas plantas e publicando o livro que já está na terceira edição que é “Fitogeografia das plantas medicinais no Maranhão”.  E o outro livro que eu fiz “57 chás medicinais da flora do Maranhão”. Eu comecei a trabalhar com as comunidades ensinando a fazer o chá da maneira correta, a maneira de ferver, pois tem plantas que não devem ser fervidas, deve ser por infusão.

O que é, efetivamente, a fitoterapia?

Fito é planta, terapia é cura. Então, a fitoterapia nada mais é do que a cura através das plantas. A gente busca diminuir um pouco a utilização dos medicamentos alopáticos. Não resta dúvida que eles têm uma eficácia maior, eles dão respostas mais rápidas, mas os efeitos colaterais também são muito mais violentos do que o efeito dos fitoterápicos. E por isso, veio a ideia de tentar substituir os alopáticos pelos fitoterápicos naquelas doenças que era possível substituir. E essa tem sido a minha grande luta nesses anos todos.

Na UFMA, em 1957, a formatura no curso de Farmácia

Em sua análise, o interesse das pessoas pela fitoterapia, hoje, é maior ou menor em relação a quando a senhora começou o seu trabalho?

É bem maior atualmente. Eu procurava muito o Governo do Estado para implantar um projeto de fitoterapia, das hortas medicinais, mas o apoio só veio com Flávio Dino. Ele assumiu o Programa de Fitoterapia e, hoje, nós já estamos em mais de 50 municípios com a “Farmácia Viva” instalada. A gente prepara a comunidade para que eles comecem a fazer os seus próprios medicamentos e sair um pouco da farmácia tradicional não só pela aquisição dos medicamentos ser muito cara, como também pelos efeitos colaterais que são mais intensos do que na fitoterapia.

Qual a importância desse projeto Farmácia Viva?

A Farmácia Viva tem a importância de descobrir novas plantas e fazer com que essas descobertas voltem em benefício de cada comunidade, que cultiva, que é responsável pelas plantas. E a FAPEMA sem sido uma grande estimulante do nosso projeto. A gente tem poucos recursos para a pesquisa e a FAPEMA está sempre presente na vida da gente. Eu tenho o maior reconhecimento pela Fundação.

Qual a metodologia do seu trabalho?

Toda a minha pesquisa é voltada a conhecer profundamente a flora e fazer um trabalho junto com as comunidades carentes. Eu sempre trabalhei criando essas hortas medicinais e procurando ajudar a comunidade a preparar seus próprios medicamentos, no que fosse possível, não só pela falta de recursos para comprar os medicamentos como também pelos efeitos colaterais dos alopáticos onde também estão mais presentes do que nos fitoterápicos.

A seleção dessas plantas se baseia nos saberes populares?

Exato. A informação vem do popular. A gente vai às comunidades e começa a saber quais as plantas que eles utilizam. Então, levamos essas informações para transformar em dados científicos, com registro disso, para que possa ser utilizado na indústria farmacêutica no aproveitamento dessas plantas na preparação de medicamentos, que são chamados fitoterápicos.

Como a senhora vê o interesse pelo estudo da fitoterapia?

É incrível, porque eu tenho 16 bolsistas, todos ficam comigo, mas o interesse pela fitoterapia não é muito presente. Por quê? Porque eu não conheço nenhum botânico rico, a não ser Burle Marx, por causa dos jardins que ele fazia. O botânico luta com muita dificuldade e eu não conheço nenhum botânico rico. A gente precisa despertar o interesse pelas coisas nossas, pela nossa flora. Nossas plantas são mandadas para o exterior, são até patenteadas lá. E o Brasil perde com isso. Então, tudo isso me incomodava muito e eu sempre parti para essa luta que era de mostrar que realmente as plantas curam, elas têm um valor, elas podem ser utilizadas e com grandes resultados. É a minha paixão pela botânica.

O que a senhora apontaria como o seu maior legado nesse mais de 50 anos de pesquisa?

Eu me sinto muito feliz. Totalmente realizada, não! Mas, hoje, a aceitação do meu trabalho, a citação da minha luta, das minhas pesquisas, me deixam muito gratificada por toda essa luta de mais de 50 anos. Eu sempre lutei por isso. Eu me lembro que viajava muito em busca de pesquisa, deixava minhas filhas pequenas mais com o pai, que foi meu grande apoiador. Graças a Deus, minhas filhas e toda a minha família entenderam a minha paixão pela botânica, pelo meu trabalho. Sou inteiramente apaixonada. Porque eu acho que a grande reserva nossa, de plantas, é que vai nos dar uma liberdade para que a gente possa fazer nossos próprios medicamentos.

Ao longo desses anos, a senhora recebeu muitas homenagens. Qual foi a mais marcante?

Todas são muito gratificantes. O Globo Rural fez uma homenagem. A gente fica muito gratificada, muito emocionada. Mas a emoção maior foi um aluno meu, que foi presidente da Anvisa, e ele, numa entrevista nos Estados Unidos, disse:  “Tudo que eu tenho, esse amor, tudo que já consegui fazer através das plantas, devo a minha professora de botânica, Terezinha Rêgo”.  Isso me marcou bastante. Ter conseguido passar um pouco dessa minha paixão pelas plantas para alguns dos meus alunos. Não são muitos. Tem agora a Kalyne [Kalyne Bezerra Costa], que está levando para os interiores o Farmácia Viva, através do apoio do governador Flávio Dino. E acho que essa é a minha grande paixão: a botânica, lutar pelas nossas plantas e mostrar o valor que elas têm.

Quais são as suas principais descobertas, nessa sua trajetória?

Eu consegui lançar um medicamento, que levei 20 anos para isolar o princípio ativo, que é a essência de cabacinha. E, hoje, até na China, já tem um testemunho de que ela cura sinusite, rinite alérgica e adenoide. Trabalhei com a cabacinha e consegui isolar o princípio ativo. Também, a chanana, essa florzinha amarela, tem uma substância energética que melhora o sistema imunológico. Ela está sendo usada no Hospital Aldenora Bello no tratamento do câncer, pois ela aumenta a resistência orgânica. São mais de 60, 50 tinturas que eu já lancei. Eu espero que alguém continue esse meu amor pelas plantas, que não deixe morrer essa importância que elas têm no dia a dia de cada um de nós, não só na saúde, como também na alegria, pois as flores trazem também muita alegria. Sou uma inteira apaixonada pela botânica.

O Brasil está num momento em que o governo federal está reduzindo verbas para a educação e a pesquisa. A senhora tem acompanhado essa situação?

Eu acho crítica. Não se pode reduzir o apoio às universidades e aos trabalhos de pesquisa. Só tenho a lamentar esse governo. E espero que haja uma mudança, que gente procure fazer, dentro da nossa realidade, para que a pesquisa não morra, para que o Maranhão continue mostrando a sua potencialidade. As plantas são uma riqueza imensurável. Espero que melhores dias venham, torço por isso. Os recursos sempre são pequenos, mas a gente consegue fazer alguma coisa pelo grande apoio da universidade. Não posso negar que a minha universidade, eu digo a minha universidade, é até errado. Quando estou nos congressos, as pessoas perguntam “ela é dona de uma universidade?”, me criticando. Mas eu tenho tanto amor pela universidade, porque ela sempre me apoiou, dentro das possibilidades, para que eu pudesse tornar esse sonho em realidade. Hoje, continuo no Herbário dando a disciplina botânica, já aposentada, contratada pela universidade, e espero morrer podendo vivenciar essa beleza que é a flora do estado do Maranhão.

A senhora também recebeu apoio de agências de fomento?

A FAPEMA é uma grande parceira. Nós tivemos, também, o apoio do CNPq e da Sociedade Botânica do Brasil. A FAPEMA tem sido uma grande estimuladora do nosso projeto. A gente tem poucos recursos para a pesquisa e a Fundação está sempre presente na vida da gente. Eu tenho o maior reconhecimento. Meu livro foi editado graças aos recursos dela. Estava em edição esgotada e a universidade não tinha recursos. Eu acho que a FAPEMA é a grande companheira dos pesquisadores. A gente só tem que enaltecer e pedir que deem mais apoio à Fundação para que ela possa continuar estimulando os pesquisadores como eu fui estimulada. É a maior gratidão.

Na passarela do samba para receber homenagem da escola de samba Favela

Houve uma discussão mundial em agosto deste ano sobre o desmatamento que está ocorrendo na Amazônia. Como a senhora vê esse momento?

Eu fico muito triste porque a Amazônia é uma riqueza, beneficia o mundo todo.

Fora do âmbito profissional, quem é Terezinha Rêgo como pessoa, como mãe, como avó?

Olha, eu não sei se, por causa desse amor pela botânica, se eu fui uma boa mãe, uma boa avó (risos…). Eu tenho muito que agradecer ao meu esposo, pois ele foi um grande incentivador. Ele é cirurgião dentista e sempre me deu o maior apoio. Eu lembro que a minha mãe era revoltada. E dizia assim “por que tu não deixas logo essa mala aí, na garagem? Porque tu não paras aqui”. Eu viajava muito. Eu sempre digo para minhas filhas que eu talvez não tenha ficado com elas o tempo que deveria. Mas cada depoimento delas me deixa aliviada desse sentimento de culpa de ter ficado afastada viajando muito. Graças ao apoio delas, e do meu esposo, consegui realizar o meu trabalho, a minha paixão.

Chegamos ao 15º Prêmio FAPEMA, em 2019, evento em que a senhora é, mais uma vez, homenageada. Como a senhora recebe mais esse reconhecimento?

Eu fiquei muito emocionada, é muito gratificante esse reconhecimento da FAPEMA pelo nosso trabalho, modesto trabalho, e levar esse prêmio para a universidade, que foi a grande apoiadora do meu projeto.  Eu tenho um carinho pela UFMA. Com 86 anos continuo lá, contratada. Tem um prédio onde funciona só o meu projeto, que é o herbário, tem a minha horta medicinal, onde a gente busca novas pesquisas, continuo incentivando os estudantes e espero poder levar até o fim esse meu amor pela botânica.

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