Pesquisa analisa mudanças em Bacabeira (MA) decorrentes de novos empreendimentos

Pesquisa analisa mudanças em Bacabeira (MA) decorrentes de novos empreendimentos
julho 08 16:59 2015

0bacabeira1A 60 quilômetros de São Luís, o município de Bacabeira no Estado do Maranhão surgiu como um lugarejo às margens da BR-135. Seu nome deriva da palmeira bacaba (Oenocarpus bacaba), que dava sombra aos trabalhadores durante as obras da rodovia. Situado na foz do Rio Mearim, o local era rota obrigatória para o transporte de frutas e coco babaçu até São Luís.

Nos anos 1980, depois da construção da BR-135 e da abertura de olarias, o município ganhou uma siderúrgica e viu chegar a Estrada de Ferro Carajás. Em meio às transformações da região, observou-se o fortalecimento de novos empreendimentos, entre eles a instalação da Refinaria Premium I da Petrobras, que a princípio ocasionou inúmeras mudanças positivas em Bacabeira, mas teve seu projeto de construção cancelado.

Uma pesquisa do Departamento de Geografia da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA) analisou as mudanças demográficas, espaciais e socioeconômicas ocorridas no município de Bacabeira, no período de 2000 a 2010, e constatou benefícios temporários no início das obras da instalação da Refinaria Premium I e desolo total da população com a constatação de que mudaram radicalmente de vida em benefício de um bem maior que não se efetivou.

Transformações

Segundo a coordenadora da pesquisa, Rosalva de Jesus dos Reis, as transformações foram de várias ordens. “A Petrobras divulgou um grande empreendimento para Bacabeira composto de refinaria, porto, usina siderúrgica e estaleiro naval. As obras iniciadas trouxeram profundas transformações, algumas de caráter irreversível, para o ambiente natural e população local”, diz a professora.

De acordo com a pesquisadora, a pesca artesanal – importante atividade de subsistência realizada, predominantemente, nos campos – ficou limitada após o início das obras. “Os pescadores que antes podiam exercer a atividade em qualquer porção da região campestre tiveram a área limitada, inclusive com marcos físicos”, afirma Rosalva de Jesus dos Reis.

No local onde foram iniciadas as obras da Refinaria existiam alguns povoados (Pode Ser, Pequi e Salva Terra). As famílias foram realocadas para um local chamado Val Paraíso. A pesquisadora afirma que entre as promessas dos antigos gestores do Governo do Maranhão estavam a construção de posto de saúde, escola de ensino fundamental, centro comunitário, unidade de lazer e casas de farinha, que até foram construídos, mas nunca funcionaram e estão se deteriorando.

“Em seus povoados de origem existia a mata onde eram coletadas frutas como manga, bacuri, pequi e juçara. As famílias viviam da pesca e da roça. Em Val Paraíso, as casa são de alvenaria, cobertas de telhas e todos receberam um lote de 01 hectare. Mas, o que receberam não foi suficiente para manterem o mesmo modo de vida. As famílias nem cogitam a possibilidade de retornar aos seus locais de origem porque o ambiente foi totalmente modificado. A vegetação, por exemplo, foi devastada com a terraplanagem”, destaca Rosalva de Jesus dos Reis.

Benefícios temporários e consequências

Benefícios temporários foram identificados com a pesquisa, como a instalação de novas empresas e a geração de emprego. “Os empregos destinados à população local foram aqueles que exigiam menor formação escolar. Mesmo assim, a remuneração compensava alguma situação anterior como subemprego, desemprego e sustento com programa social do governo”, explica a professora.

No entanto, a pesquisa constatou que à proporção que as empresas foram se instalando no município os preços dos imóveis (tanto para venda quanto para aluguel) e das mercadorias foram aumentando. Este foi um fato encarado com descontentamento pela população local de baixa renda.0bacabeira2

A professora explica que em todos os contatos que foram feitos durante o estudo – com a administração municipal, integrantes da colônia de pescadores e associação de moradores, com a população dos povoados Vidéo e Val Paraíso, professores e comerciantes – observou-se um sentimento de esperança (de geração de emprego e renda, de qualificação profissional, de elevação da escolaridade, entre outros). “Com a paralisação das obras percebe-se um desolo, frustração, descontentamento, tristeza e em alguns casos, revolta”, conta Rosalva de Jesus dos Reis.

Para análise da percepção da população local frente aos grandes projetos fez-se um recorte espacial dos povoados Vidéo e Val Paraíso. Foram realizadas entrevistas com questões abertas e fechadas com visitas a domicílios e entrevistas com os moradores. Além de pesquisa bibliográfica, análise de imagens de satélites, análise de dados censitários de 2000 e 2010 e observações in loco. A pesquisa teve o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (FAPEMA), por meio do Edital Universal.

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