Pesquisa desvenda o processo de ocupação e aspectos socioeconômicos de grupos indígenas em São Luís

Pesquisa desvenda o processo de ocupação e aspectos socioeconômicos de grupos indígenas em São Luís
fevereiro 13 18:39 2017

00.indiosOs índios do tronco Tupi são o principal grupo indígena do Brasil, em que se destaca a família tupi-guarani. Essa designação é linguística e se refere a um conjunto de línguas aparentadas, faladas por uma grande quantidade de tribos indígenas. Não existia, propriamente, uma única língua, nem se compartilhava uma única cultura, o que justifica diferenças nas organizações sociais e nos costumes, bem como na produção material. Essa distinção foi considerada na pesquisa Carta arqueológica dos sítios tupi-guaranis na Ilha de São Luís, Maranhão, dirigida pelo coordenador do Laboratório de Arqueologia da Universidade Federal do Maranhão, Pós-doutor em Arqueologia Histórica, pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Alexandre Guida Navarro. O projeto foi desenvolvido no período de 2010 a 2012 e teve como principal objetivo produzir uma carta arqueológica, por meio do mapeamento dos sítios desses grupos indígenas existentes na capital maranhense.

Para a produção dessa carta, o projeto utilizou a metodologia do estudo sistemático da área geográfica compreendida pelos sítios tupi-guaranis, que estão espalhados por toda a ilha e pelo continente sendo, inclusive, citados em livros escritos pelos colonizadores durante o processo de colonização, nos séculos XVI e XVII. Navarro revela que foram feitas prospecções intensivas na região, com o objetivo de registrar e catalogar por meio dos sistemas GPS e GIS (Geographical Information System), com vistas a criar um mapa topográfico desses locais. De acordo com ele, uma vez catalogados torna-se possível a criação de um banco de dados para entender o processo de ocupação desses povos na Ilha de São Luís. “Estes equipamentos são importantes porque localizam no mapa o local exato dos sítios arqueológicos. A partir disso, podemos estudar a relação deles com o espaço circundante, como os rios e os morros. Deste modo, são ferramentas importantes para entender a ocupação humana em determinado território”, explica.

Alexandre Navarro revela que a pesquisa seguiu uma ação metodológica que permitisse uma sistematização de dados que possibilitasse a interpretação do significado do passado humano a partir da cultura material. “Dessa forma pudemos identificar as semelhanças e diferenças do registro arqueológico de cada sítio, bem com seus contextos específicos”. Ele conta que, considerando-se as peculiaridades de cada espaço, os pesquisadores puderam construir a proposta de ocupação humana, inclusive em uma esfera macrorregional.

A carta arqueológica, diz o pesquisador, fornece um catálogo de sítios que, inventariados, funcionam como base de dados para a elaboração de pesquisas pontuais. Ele conta que os pesquisadores conseguiram identificar muitas das 27 aldeias da ilha com relação ao nome. “A nossa pesquisa mostrou que D’Abbeville se preocupou realmente em localizar as grandes aldeias da ilha. Se suas descrições sobre os sítios são verdadeiras, é muito provável que as demais descrições que ele fez dos índios também o são. É preciso que esta pesquisa continue. Há muito que se descobrir ainda”, diz. “Comparamos a denominação das antigas aldeias com os nomes dos bairros atuais. Falta ir aos locais e reconhecê-las. Além disso, algumas delas estão enterradas sob o asfalto por conta do crescimento das cidades da ilha. Mas muitas continuam lá”, acrescenta.

Outro fato descoberto sobre a ocupação é que os tupi-guaranis habitaram uma região bastante extensa do território brasileiro, indo desde o sul do Rio Grande do Sul, pelo litoral, até o Nordeste chegando ao sul da Amazônia. “Também se fixaram na região do Pantanal, em alguns locais do sertão, o Paraguai e a Bolívia. Eles davam preferência a regiões tropicais e subtropicais, em locais próximos às matas ciliares devido à fertilidade do solo e das áreas de rios navegáveis, visto utilizarem o transporte por canoas”, conta Alexandre Navarro.

Ramificação

Outra proposta da pesquisa, segundo Navarro, foi introduzir uma linha de investigação em Arqueologia no curso de História da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). “Conseguimos implantar na área de Cultura Material”, conta, satisfeito, o professor.

O projeto também fez um estudo sobre o que foi identificado como comércio de longa distância e circulação de bens de prestígio entre as sociedades. Navarro revela que, por meio das crônicas pesquisadas, foram identificados vários objetos que eram trocados pelos tupi-guaranis, como é o caso das pedras verdes, muito escassas no Maranhão, e que eram comercializadas por serem considerados objetos de prestígio. “Outro produto importado eram algumas conchas, que também tinham simbolismos importantes, como a fertilidade, e eram trazidos da costa do Pará, por exemplo”, revela.

Sobre os bens de prestígio, Navarro explica que se trata de objetos usados pela elite, pelos chefes indígenas e que tinham um simbolismo importante entre eles, “ou seja, eram identificados coletivamente entre todas as sociedades e as pessoas, ao reconhecê-los, imediatamente sabiam que seus portadores eram pessoas importantes, alguém de destaque na sociedade”. Um dos bens de prestígios mais importantes entre os tupi-guaranis, era o tembetá, um objeto feito de pedra verde (geralmente uma nefrita, parente do jade) que era polido e colocado abaixo dos lábios nos homens, indicando masculinidade e poder. “Este tipo de material é muito difícil de ser encontrado nas escavações pelo fato de estarem restritos às elites, mas as crônicas mencionam trocas realizadas entre as diversas aldeias. Artefatos de luxo também foram comercializados, o que indica certa complexidade social”, finaliza Alexandre Navarro.

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