Pesquisadoras discutem problemas e soluções sobre Aedes aegypti no Maranhão

Pesquisadoras discutem problemas e soluções sobre Aedes aegypti no Maranhão
dezembro 16 19:33 2015

O surgimento de casos de microcefalia no Brasil fez ressurgir a preocupação com um velho conhecido dos brasileiros: o Aedes aegypti, popularmente conhecido como mosquito da dengue, responsável pela transmissão do zika vírus, que está relacionado a esse problema de saúde, bem como à dengue e à febre amarela. Os últimos levantamentos de casos foram apresentados durante o seminário A ciência contra o Aedes aegypti e, a partir deles, os convidados e palestrantes debateram sobre formas de combate.

A microcefalia é uma condição neurológica rara em que a cabeça e o cérebro da criança são significativamente reduzidos em comparação ao de outras da mesma idade. Dados do Ministério da Saúde dão conta que, até agora, o Brasil já registrou 2.401 casos da doença, em 20 estados, com predomínio da região Nordeste (Pernambuco é onde há maior número de crianças com o problema, segundo o levantamento). Essa incidência tem preocupado autoridades e pesquisadores da área de saúde, assim como a população em geral, e a Fapema decidiu promover o seminário, visto que já existem pesquisas na área de controle e combate ao transmissor do Zyka vírus, que é o mesmo da febre amarela e da dengue, doenças comuns de regiões tropicais e que há décadas são alvos de preocupação.

00seminariodengue2Segundo o secretário de Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado, Bira do Pindaré, o momento atual é bastante delicado, daí a mobilização dos estados em geral. “E a ciência não pode ficar alheia, pois não há possibilidade de combate ao problema sem a participação científica”. Bira destacou que, neste momento, deve haver a aplicação das pesquisas que vem sendo desenvolvidas. “Esse é o papel fundamental da Fapema, o de enfrentar o problema, pois há recursos públicos que são aplicados em pesquisas e essas devem nortear as ações de combate”, acrescentou o secretário.

O diretor-presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa, Alex Oliveira de Souza, destacou que a Fundação tem desenvolvido pesquisas dentro da temática. “Não há, exatamente, uma específica sobre a Zyka, mas como o transmissor é o mesmo, o que se tem produzido na área funciona para evitar esse problema”, explicou. Alex Oliveira contou que os estudos desenvolvidos com o apoio da Fapema demonstram que há soluções viáveis e práticas no combate ao mosquito. “Precisamos desenvolver formas de convencimento, pois a população está habituada com os métodos tradicionais, como o de não acumular água. Essa estratégia ainda é eficaz e necessária, mas há outras mais eficientes”.

As pesquisas, segundo o secretário Adjunto de Atenção Primária em Saúde do Estado, Arnaldo Muniz, tem chegado ao conhecimento da SES, que está em permanente vigilância a esses novos problemas de saúde. “Estamos, neste ano, trabalhando firmemente na reestruturação do Programa de Controle Vetorial e sabemos da importância de reforçar a atuação dos agentes de saúde”. Arnaldo Muniz disse que se está vivendo um momento de emergência na saúde pública. “Dai devemos estar sempre atentos e desenvolver políticas de combate das larvas e dos mosquitos adultos e há condições para isso, o que é evidenciado pelas pesquisas”, enfatizou.

Pesquisas – A primeira parte do seminário, Estudo da bioecologia do Aedes aegypti e medidas de controle da dengue e outros arbovírus, foi apresentada por 00seminariodengueValéria Cristina Soares Pinheiro. A pesquisadora abordou os processos de transmissão e as características do vetor, que fazem com que o mosquito se adapte à região, bem como as medidas de controle e combate.

Valéria Pinheiro começou explicando que o Aedes aegypti é conhecido mundialmente como transmissor da dengue, mas que também é o responsável pela febre amarela e, agora, pela Zyka. Sobre essa última doença, alvo principal do seminário devido aos casos de microcefalia registrados no Brasil, a pesquisadora informou que tem sido registrados casos em localidades da África e da Ásia, “mas é no Brasil que se torna um problema de saúde pública”, afirmou ela.

A pesquisadora alertou que, diante da nova realidade, é importante que se tenha em mente que as medidas convencionais, isoladamente, não são suficientes na tarefa de combate ao problema. “Somente o controle químico não está dando conta. Daí a importância das pesquisas na área de controle biológico que temos desenvolvido e que mostram resultados eficientes”, disse ela, que destacou, ainda, a importância da educação nesse processo. “Levamos estudantes para a universidade, pois sabemos que eles atuam como excelentes agentes no repasse de informações, tanto em nível familiar, quanto na comunidade em que vivem”, revela Valéria, acrescentando que os agentes de saúde também são alvo de palestras. “Esses profissionais devem ser não apenas treinados, mas motivados para que a atividade que desenvolvem não se torne uma rotina e eles possam contribuir para a adoção de novos métodos de controle do problema”.

No segundo painel do seminário, Desenvolvimento de compostos inseticidas naturais para o controle do Aedes aegypti vetor da dengue, a pesquisadora Adriana Câmara também destacou os casos de microcefalia como um evento grave e que o problema não será resolvido em pouco tempo. “Teremos ainda o registro de muitas crianças com microcefalia, dai a urgência em se tratar desse problema”, enfatizou.

Adriana Câmara revelou que a ciência trabalha com ações de combate ao Aedes aegypti há muito tempo. “O mosquito chegou a ser erradicado na década de 1950, mas ressurgiu nos anos 1980 e hoje não se fala mais em extinguir o vetor, mas em controlar”, explicou ela, que tem a população como fundamental nas ações contra o Aedes. “As pessoas devem participar e entender que há outras ações que devem ser aplicadas, além de evitar o acúmulo de água”.

A pesquisadora, então, falou de métodos que são resultados de pesquisas e que tem sido testadas com sucesso no Maranhão. O uso do “Aedes transgênico”, o mosquito com a bactéria Wolbachia e os biolarvicidas (Bti) estão entre os destaques. Destaque, também, para o Nim indiano, uma árvore típica da Índia e que se adapta perfeitamente bem em muitas regiões do Brasil e em todo o Maranhão. “Das folhas desse vegetal produzimos o extrato hidroalcóolico, que atraem o mosquito e faz com que ele ponha os ovos nos locais onde há a substância. Daí temos como tratar do problema antes mesmo que ele surja”, afirma.

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