Sistema de rastreamento analisa movimentação de pássaros por meio de GPS

Sistema de rastreamento analisa movimentação de pássaros por meio de GPS
janeiro 21 20:12 2016

00carlos-david2O movimento coletivo dos animais selvagens tem fascinado gerações de cientistas, mas as regras sociais que regem esse fenômeno só recentemente começaram a ser revelada. Isto tem sido facilitado por inovações tecnológicas, como o GPS, fornecendo as ferramentas para rastrear com precisão o comportamento dos indivíduos no contexto social.

Mais do que a própria coordenação, o deslocamento de comportamentos individuais e movimentos temporais são altamente informativos sobre a tomada de decisões em grupos sociais. Quando e por que alguns indivíduos se movem mais cedo do que outros dentro de seu grupo social? Até que ponto os outros seguirão eles?

Estas são questões fundamentais abordadas pela pesquisa “Animal Tracking Update: How Can GPS-GSM Tracking Can Help Shorebird Ecologists?”, do professor do Departamento de Biologia da Universidade Federal do Maranhão, Carlos David da Silva Oliveira dos Santos, sobre a sociabilidade animal.

O estudo foi apresentado no 6th Western Hemisphere Shorebirds Group, na Virgínia (EUA), com apoio do Programa de Apoio a Participação em Eventos Técnicos Científicos da Fundação de Amparo a Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (FAPEMA).

A 6th Western Hemisphere Shorebirds Group é a única reunião especificamente concebida para promover o intercâmbio entre os cientistas e conservacionistas em aves limícolas do Norte, Central e América do Sul – regiões que compartilham as mesmas aves marinhas migratórias através de invernada, migrando e épocas de reprodução.

“Resolvi fazer essa apresentação nesta conferência, primeiro porque é um das linhas de trabalho que vou desenvolver aqui no Maranhão e é precisamente com esse grupo de aves. Queria utilizar essa tecnologia para fazer o seguimento da migração completa dessas aves. Fui a essa conferência para apresentar essa tecnologia como uma tecnologia potencial para estudar a migração destas aves”, destaca o pesquisador

O professor apresentou um sistema de rastreamento para colher informações da roda de aves através de aparelho celular. “O que nós fizemos foi usar um aparelho GPS que enviava informação através de celular, que eram utilizados para fins domésticos. Nós pegamos aparelhos que estavam sendo vendidos por uma companhia de rastreamento de automóveis – aparelhos suficientemente pequenos para fazermos o rastreamento das aves – e adaptar os aparelhos de GPS”, explica Carlos David.

Segundo Carlos David, esses aparelhos não estavam adaptados para a utilização de baterias muito pequenas. “Nós adaptamos o software desses aparelhos para podermos utilizar baterias menores. Ao mesmo tempo utilizamos uma solução para alimentar essas baterias com energia solar. Esse passo nos permitiu fazer vários projetos de rastreamento de animais”, diz o professor.

De acordo com o pesquisador, o custo de aparelhos que estão no mercado para o rastreamento via satélite custam em média US$ 3 mil, além dos custos da informação. “Se você seguir um animal durante um ano, você pode gastar até US$ 10 mil por animal. Então isso faz com que os custos das pesquisas sejam elevados. O custo desse método tem o valor de US$ 200. Fizemos um estudo para seguir aves de rapina entre a Europa e África e neste caso seguimos 150 animais. E só foi viável devido aos custos baixos desse material que desenvolvemos. Esse foi a grande vantagem do desenvolvimento dessa tecnologia”, afirma Carlos David.

Pequenos grupos de animais sociais rotineiramente têm que lidar com a necessidade de se chegar a consenso, a fim de manter a coesão do grupo. Isto pode ser conseguido em uma diversidade de maneiras, não necessariamente envolvendo todos os membros do grupo no processo de tomada de decisão.

Pombos-correio (Columba livia) têm sido muito utilizados como espécies modelo em estudos de navegação de animais e, mais recentemente, em uma pesquisa pioneira sobre a navegação social. Pombos são conhecidos para desenvolver rotas homing – de regresso ao local de origem – quando treinados. Estas “assinaturas vôo” foram utilizadas para investigar a interação social entre os pares de pássaros em vôo conjuntos.

“Em um de nossos estudos, usamos rastreamento GPS de alta precisão para seguir rebanhos inteiros de pombos-correio, com personalidades conhecidas e morfologia durante os voos teleguiados onde eles foram severamente predadas por aves de rapina. Isso nos permitiu determinar como os traços de personalidade e morfologia de pombos podem afetar o risco de serem predados por aves de rapina. Nosso modelo de sobrevivência mostrou que os pombos individuais, que eram mais tolerantes a abordagem humana, mais lento para escapar de um ambiente confinado, mais resistentes a manipulação humana, com tarsos maiores e com plumagem mais leves eram mais propensos a ser predados por aves de rapina”, destaca Carlos David.
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Foram quantificados a repetibilidade das estruturas do rebanho à base de liderança dentro de um vôo e em vários vôos realizados com os mesmos animais. Foram comparados dois contextos de composição do rebanho: bandos de aves da mesma idade e experiência de voo; e, bandos de aves de diferentes idades e experiência de voo.

Todos os rebanhos exibiram estruturas baseadas em liderança consistentes ao longo do tempo, mostrando que os indivíduos têm papéis estáveis nas decisões de navegação do rebanho. No entanto, bandos de idade e experiência de vôo equilibrada exibiram estabilidade e liderança reduzida, indicando que estes fatores promovem estruturação.

“Nosso estudo demonstra empiricamente que a liderança e seguidores são comportamentos consistentes em bandos de pombos homing, mas essa consistência é afetada pela heterogeneidade das experiências de voo individuais e/ou idade. Evidências similares de outras espécies sugere liderança como um importante mecanismo para o movimento coordenado em pequenos grupos de animais com fortes laços sociais”, afirma o pesquisador.

Conforme o pesquisador, esse é um tipo de pesquisa muito fundamental porque se pode fazer a aplicação para a sociedade civil, como por exemplo, a gripe aviária, nome dado à doença causada por uma variedade do vírus Influenza (H5N1) hospedado por aves, mas que pode infectar diversos mamíferos.

“Se você não entender o migração dessas aves, você não consegue compreender os padrões de disseminação de uma doença como essa. Compreendendo a migração, você consegue saber antecipadamente onde essa doença pode ocorrer e pode colocar as autoridades civis em alerta para um possível surto dessa doença em determinado local”, ressalta Carlos David.

Outro ponto a analisar são catástrofes relacionadas com multidão, como em estádios de futebol, esmagamentos etc. “Com as aves procuramos entender como que essa informação se transfere dentro de um grupo de animais. E conhecendo essas relações, como os animais se movem diante de determinadas situações, podemos entender os mecanismos que mostram como uma multidão se movimenta. Isso pode ser utilizado para prevenir situações de risco quando há grandes movimentações humanas”, explica o professor.

 

 

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